Juventude perdida

Ao menos nove pessoas, incluindo dois atiradores, morreram em um tiroteio na escola estadual Raul Brasil, no Jardim Imperador, em Suzano, na Grande São Paulo, na manhã desta quarta-feira (13/mar). Os atiradores, que, segundo o comando da Polícia Militar, tinham entre 17 e 25 anos, abriram fogo a esmo no horário do intervalo e mataram estudantes e funcionárias do colégio. Logo em seguida, suicidaram-se. O total de baleados ainda não foi confirmado pelas equipes de resgate.

A tragédia evidencia, mais uma vez, o risco de morte que acomete todos os jovens brasileiros. O número de crianças e adolescentes vítimas de armas de fogo aumentou 12% de 2012 a 2016, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade, do Ministério da Saúde. No total, no período, foram 44.578 mortes causadas por agressões e lesões por disparos de arma de fogo de diferentes calibres. A maior parte das vítimas (61%) são crianças pretas e pardas: 31.200.

Com base nesses dados, a Fundação Abrinq realizou um levantamento em 2018 e mostrou que o número de homicídios de crianças e adolescentes por arma de fogo aumentou 113,7% em 20 anos. Apesar do aumento de números absolutos, o ritmo de crescimento desacelerou a partir de 2003, ano em que foi sancionado o Estatuto do Desarmamento, quando restringiu-se a posse e o acesso a armas no país. De 1996, quando começa a série histórica do SUS, a 2003, a média de crescimento do número de casos era de 3%. De 2003 a 2016, foi de 1%.

Segundo o pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Daniel Cerqueira, as razões para o aumento são várias. “Hoje temos 79 facções de narcotraficantes no Brasil, que trazem para dentro jovens cada vez mais novos”, diz. “Uma outra questão que me chama a atenção é que a sociedade nos últimos anos tem ficado cada vez mais transigente. Esse clima de polarização também contagia os jovens.”

Mas tudo seria diferente se eles não tivessem acesso às armas de fogo. “O jovem que ainda não passou pelo processo de aculturação, quando ele tem uma arma de fogo na mão, isso é perverso. A violência juvenil sempre existiu, mas seus efeitos são diferentes quando o jovem tem um arma de fogo”, explica.

Em um panorama mais amplo, o Atlas da Violência de 2018 mostra que, considerando a década 2006-2016, o país sofreu aumento de 23,3% nos casos de homicídios de jovens de 15 a 29 anos. Esses números não incluem apenas os casos de armas de fogo. Em 2016, foram 33.590 jovens assassinados, sendo 94,6% do sexo masculino.

Seja qual for o recorte dos dados a ser observado, o fato é que o jovem brasileiro morre em taxas muito elevadas. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil detém o sétimo maior índice de homicídios entre jovens em todo o mundo. Piores do que o Brasil, apenas Honduras, El Salvador, Colômbia, Venezuela, Iraque e Síria.

“Houve uma queda no número de homicídios depois do Estatuto do Desarmamento, de 2003 a 2007. Depois, voltou a crescer, justamente quando começa uma sabotagem do estatuto, com centenas de emendas parlamentares e o crescimento na licença de armas”, diz Cerqueira. Agora, com o decreto que flexibiliza a posse de armas de fogo, a violência pode aumentar. “Um ponto central que vai ter muitas consequências é essa politica irresponsavel de facilitar o acesso a arma. Veremos mais casos como o de Suzano”, diz.

Acesso a armas é um dos grandes temas tratados pela literatura acadêmica. Assim como a avaliação da Fundação Abrinq, outros estudos norte-americanos também mostram que as armas de fogo são um perigo para as crianças e adolescentes. Nos Estados Unidos, os estados têm diferentes legislações para a posse e porte de armas. Onde as leis são mais flexíveis, o perigo é maior. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que as lesões relacionadas a armas são a segunda principal causa de morte de crianças nos EUA — elas são duas vezes mais comuns em estados com leis de armas mais brandas.

Um outro estudo mostra ainda que a maioria dos pais e cuidadores, incluindo os proprietários de armas de fogo, se mostram confiantes de que seus filhos são capazes de distinguir uma arma real de uma de brinquedo. As próprias crianças acreditam nisso. Mas quando foram mostradas lado a lado foto de armas de fogo reais e falsas, apenas 41% delas, com idades entre 7 e 17 anos, identificaram os dois corretamente. Por Reprodução Época | Foto: Maiara Barbosa / G1 

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