Alô, presidente da Funarte: não há nada menos subversivo do que o rock

Por Sérgio Martins/VEJA.COM – “O diabo é o pai do rock”, vociferava Raul Seixas em Rock do Diabo, faixa de Novo Aeon, álbum de 1975. Proferido em tom de troça, o verso do roqueiro baiano aparentemente se tornou um mantra para Dante Mantovani, atual presidente da Funarte. Ele já havia divulgado seu pouco apreço pelo gênero americano em seu canal no YouTube, quando o associou às drogas, sexo, aborto e – ah, vá! – satanismo. O queixume contra a turma do “a-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom!”, como diria Little Richard, voltou à tona na quarta-feira, durante a divulgação do Prêmio de Apoio às Bandas de Música 2020. O edital da Funarte, que tem por objetivo distribuir 790 instrumentos de sopro para 158 grupos musicais, veta a presença de bandas de rock entre os agraciados. Tudo bem que as big bands, cuja sonoridade é calcada em instrumentos de sopro, também ficaram de fora. Mas Mantovani persegue o ritmo com a voracidade de um inquisidor em busca de candidatos à fogueira.

O rock nunca escondeu sua lascividade e subversão. Nasceu para desafiar os pais, o governo e a igreja. “Os adolescentes o adoram porque ele é rápido, agressivo e os pais simplesmente o detestam”, dizia Lemmy Kilmister, líder do ultra pesado Motörhead, sobre o amor dos jovens pelo heavy metal. Desde ao menos o final dos anos 70, contudo, essa é uma noção extemporânea. Hoje em dia, é de uma ingenuidade bisonha temer o poder subversivo dos cabeludos com guitarras barulhentas: na indústria musical, não existe nada mais institucionalizado que o rock.

Os contestadores de 30, 40 anos atrás se tornaram os avôs e pais que levam suas crianças para assistir aos shows de Kiss e Iron Maiden em shows superproduzidos em ambientes controlados. Embora o protesto ainda esteja presente em algumas das principais bandas do gênero, nos Estados Unidos e no Brasil o figurino subversivo casa muito melhor com um gênero como o rap – que, aliás, tomou o lugar do antigo rock’n’roll na preferência de juventude. No Brasil, o rock se tornou um senhor ainda mais desdentado. A fúria cedeu espaço para bandas com letras fofinhas ou até que bebem dos chavões da autoajuda. Hoje em dia, acredite: o sertanejo de um Luan Santana ou um Jorge & Mateus ostenta mais sensualidade e guitarras distorcidas do que os grupos de rock e pop mansinhos que dominam as rádios.

Aparentemente, as broncas de Mantovani são contra o sexo e o satanismo. Ora, o rock atual vem apelando menos à sensualidade do que o forró, o funk ou a MPB. O satanismo que ainda resiste em algumas bandas de metal pesado é do tipo me engana que eu gosto: os metaleiros do momento são tão inofensivos quanto os monstros de filmes de terror B dos anos 60.

Se fosse mais informado, o presidente da Funarte perceberia ainda que o que não falta na praça é roqueiro “reaça”. Inúmeros deles comungam dos pensamentos nacionalistas e retrógrados do atual governo. Um bom exemplo é Dave Mustaine, guitarrista e líder do Megadeth, que apoiou a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque. Perto do veterano guitarrista Ted Nugent, o atual presidente Donald Trump seria um “querido” dos imigrantes. São famosos os ataques virulentos que Nugent faz aos nativos de língua hispânica. Ele é contra o controle de armas e adora caçar animais – mesmo hobby, aliás, de James Hetfield, guitarra e vocalista do furioso grupo de thrash metal Metallica.

Com seu edital dirigista, Mantovani – que se orgulha de ser maestro, embora nunca tenha regido qualquer grupo sinfônico de expressão – ignora, ironicamente, outro dado da realidade: atualmente, existem roqueiros de boa cepa mesmo entre os evangélicos. O duo de folk rock Os Arrais, o grupo (infelizmente extinto) Oficina G3 e Rodolfo Abrantes, ex-cantor dos Raimundos, defendem valores cristãos em meio a guitarras distorcidas e marretadas de bateria. Uma lição de Raul Seixas se aplica perfeitamente, em suma, ao gênio que produziu o tal edital: “Vê se te orienta”. (Foto: Dave Mustaine, vocalista do Megadeth Reprodução/Instagram)

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